Publicado pela revista Genomic Psychiatry em janeiro de 2026, o estudo Insights from Brazilian supercentenarians, em tradução livre: Descobertas sobre os supercentenários brasileiros, realizado pelo Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP) e liderado pela geneticista Mayana Zatz, colocou o Brasil no centro do conhecimento sobre longevidade.
Isso porque, apesar de pesquisas sobre o tema terem progredido muito nas últimas décadas, os dados utilizados vinham de países com perfis genéticos homogêneos. Já os cientistas brasileiros puderam contar com a população de uma das nações mais miscigenadas do planeta para investigar como variabilidade genética pode contribuir para que algumas pessoas não apenas vivam mais, mas envelheçam bem.
Foram pesquisados cerca de 160 centenários, entre eles 20 supercentenários — pessoas com 110 anos ou mais — de diferentes regiões do Brasil e contextos sociais. Foi estudada uma das famílias mais longevas já registradas no Brasil, na qual uma mulher de 109 anos tinha sobrinhas de 100, 104 e 106 anos.
Ao Jornal da USP, o coautor do artigo, João Paulo Limongi França Guilherme, destacou que as células dos supercentenários brasileiros parecem ser mais jovens e mais resistentes ao envelhecimento. Ele afirmou ainda que há uma grande diferença na regulação hormonal nesse grupo, porque os hormônios que deveriam cair, parece que se mantêm – o que se reflete no melhor funcionamento do organismo. Outra questão é a capacidade imunológica. Nossos “superidosos” possuem sequências e variantes genéticas ligadas ao sistema imune que não aparecem na população de outros países.
Os pesquisadores devem seguir com a pesquisa, estendendo a investigação para outros campos, além do genômico, como o sistema musculoesquelético e cognitivo.
Em entrevista à revista Época Negócios, Mayana Zatz afirma que, para qualquer pessoa envelhecer bem até os 90 anos, a genética tem um peso de 20%, enquanto que o ambiente e os hábitos saudáveis respondem por 80%. No entanto, a partir de 100 anos, a genética torna-se preponderante. Daí a importância das descobertas desse estudo. Segundo ela, encontrar os genes que permitem driblar o declínio celular inerente à idade é um passo decisivo rumo ao futuro.