Um novembro azul além da conscientização sobre o câncer de próstata

Mês destinado ao combate ao segundo tipo de câncer mais comum em homens é acompanhado da sensibilização a respeito do autocuidado masculino. Homens, cuidem-se também!

Um novembro azul além da conscientização sobre o câncer de próstata

Sabemos que novembro é o mês escolhido para conscientizar os homens sobre o câncer de próstata. Mas, já há algum tempo, a campanha do penúltimo mês do ano tem servido para reforçar a mensagem de que homens também precisam cuidar da saúde.

O “também” do parágrafo anterior não está ali por acaso. Dados do Sistema de Informação Ambulatorial (SAI) do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, entre 2016 a 2020, houve um aumento considerável de homens que foram buscar atendimento médico: de 425 milhões para 637 milhões. Mas são as mulheres quem têm o hábito de ir ao médico ou procurar um atendimento quando algo na saúde não está bem.

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS)-2019, feita pelo IBGE, mostrou que 82,3% das mulheres consultaram um médico naquele ano contra 69,4% dos homens (lembrando que há mais brasileiras do que brasileiros na nossa população). Quando falamos na procura por atendimento de saúde (que compreende mais serviços do que a consulta com o médico), a diferença também é notada: 22,1% das mulheres contra 14,8% dos homens.

“O Novembro Azul foi um mês criado para o cuidado do homem com o objetivo de trazê-lo aos serviços e atendimentos de saúde. Embora, muitas pessoas vinculem a data com o cuidado da próstata, a saúde do homem é muito mais ampla, visto que está relacionada com diversos hábitos de vida”, explica Marco Túlio Aguiar, médico de família e comunidade e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

Entre essas questões estão o consumo de álcool, fumo e outras substâncias, obesidade, hipertensão, diabetes, saúde mental e outras doenças crônicas não diagnosticadas, uma vez que o homem não é muito assíduo às consultas ou no acompanhamento médico. “São problemas que muitas vezes não são detectados. E quando são descobertos, estão em uma fase mais tardia”, lamenta Aguiar.

Cultura preventiva 

Existe um motivo que ajuda explicar os números acima, como mostra Karin Anzolch, membro da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e vice-presidente da Seção Estadual Rio Grande do Sul: a cultura preventiva é muito mais forte no público feminino.

“Desde cedo a mulher é criada nessa cultura, em que ela vai ao ginecologista ainda nova. Então ela acaba se preocupando com outras questões como alimentação, pressão arterial e fatores que vão influenciar na qualidade de vida dela”, explica Anzolch.

Já em relação aos homens, a médica cita que existe um limbo na ideia de ir ao médico após a fase pediátrica. Você, homem, lembra em que circunstâncias procurou atendimento médico na adolescência? Era em busca da prevenção ou da cura?

É bem provável o homem comece a se questionar sobre o momento de consultar um especialista — como a Karin Anzolch — na vida adulta, mais especificamente quando perceber um sintoma — no caso dos pacientes da entrevistada, sintoma que pode estar relacionado ao câncer de próstata.

“Hoje já temos ferramentas (como o exame PSA) disponíveis para promover uma medicina preventiva a esses homens, conseguindo prevenir eventos que, lá na frente, podem comprometer a sua qualidade de vida e a longevidade”, explica Anzolch.

Por que os homens adoecem e morrem mais do que as mulheres? 

O último dado disponível sobre a expectativa de vida do brasileiro (2019) mostra que ela é de 76,6 anos (IBGE). Mas há diferença na longevidade feminina e na masculina: sete anos a mais para as mulheres (80,1 contra 73,1 anos, respectivamente).

“A expectativa de vida masculina no país poderia ser superior à que se estima atualmente, se não fosse o efeito das mortes prematuras de jovens por causas não naturais”, disse Fernando Albuquerque, demógrafo do IBGE à época da divulgação do estudo, em novembro de 2020..

Segundo Aguiar, as doenças que mais acometem os homens são hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, como o de próstata e pulmão. E ainda há outros males frutos de causas externas, como acidente de trânsito e lesões por arma de fogo.

“Tanto as doenças quanto as causas externas são evitáveis”, diz o médico de família e comunidade. Não só evitáveis como controláveis, como é o caso de diabetes, hipertensão, obesidade e oeventos de causas externas.

Na publicação Dados de Morbimortalidade Masculina no Brasil, o Ministério da Saúde lista dez motivos por trás dessa diferença de mais de meia década entre a expectativa de vida masculina e feminina.

Os homens, em geral:

  1. Estão envolvidos na maioria das situações de violência.
  2. Têm medo de descobrir doenças.
  3. Não seguem os tratamentos recomendados.
  4. Acham que nunca vão adoecer e por isso não se cuidam.
  5. Não procuram os serviços de saúde.
  6. Não se alimentam adequadamente.
  7. Estão mais suscetíveis às infecções de IST/aids.
  8. Estão mais expostos aos acidentes de trânsito e de trabalho.
  9. Não praticam atividade física com regularidade.
  10. Fazem uso de drogas e álcool com mais frequência.

“É importante que haja uma mudança de cultura. O homem deve se responsabilizar pelo próprio cuidado.”

Marco Túlio Aguiar, médico de família

Novembro Azul e o câncer de próstata

O câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. O  (Inca) estima que em 2020 tenham sido diagnosticados 65.840 novos casos, o que corresponde a quase 30% dos tumores em homens. O número de mortes dessa doença foi de 15.983 pessoas (em 2019).

A idade é um fator de risco. Cerca de 75% dos casos de câncer de próstata no mundo acontecem a partir dos 65 anos. Mas já a partir dos 50 anos há um aumento significativo na incidência e mortalidade desse tipo de câncer. No Brasil, por exemplo, 90% dos casos ocorrem depois que o homem completa 55 anos.

O câncer de próstata é, na maioria dos casos, silencioso. Segundo o Inca, pode levar cerca de 15 anos para atingir 1 cm³ e pode não chegar a dar sinais durante a vida ou ameaçar a saúde do homem. Mas acontece que alguns desses tumores podem crescer de forma rápida e espalhar para outros órgãos, podendo levar o paciente à morte.

Resumindo: não dá para contar com a sorte, não é mesmo?

As chances de o câncer de próstata aparecer:

- Entre 40 e 50 anos: de 3% a 6%

- A partir de 50: aumenta significativamente a taxa de incidência e mortalidade

- 60+: pico da doença, ainda mais quando há histórico na família

Fonte: Dra.Karin Anzolch

Além de fatores genéticos (pai ou irmão com diagnostico de câncer de próstata antes dos 60 anos pode aumentar o risco) e de idade, estudos acadêmicos descobriram que pessoas afrodescendentes têm 1,6 vez maior probabilidade de serem diagnosticadas com câncer de próstata. Não há um entendimento científico sobre esse dado, mas os pesquisadores acreditam que o fator socioeconômico e o preconceito racial acabem por limitar o acesso desse perfil aos serviços de saúde.

Dra. Karin Anzolch cita outros fatores que podem levar um homem a ter câncer de próstata:

- Consumo de gordura animal e carne vermelha.

- Exposição a produtos químicos, como derivados do petróleo.

- Exposição a bactérias e vírus.

- Relação sexual sem proteção.

 

Nota da redação:

Segundo a Revista Pesquisa Fapesp, um estudo da Universidade da Califórnia (Estados Unidos) destacou que a tricomoníase, infecção causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis, tem ligação com o câncer de próstata. A proteína da bactéria é capaz de produzir células tumorais na próstata. Já uma pesquisa da Universidade Harvard (Estados Unidos) mostrou que 25% dos homens com este câncer mostraram sinais da infecção e tinham tendência a ter tumores agressivos.

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