O que é (e como é) ser mãe depois dos 40 anos

No Dia das Mães, duas mulheres contam suas experiências ao dar à luz depois dos 40 anos. Conheça essas histórias e inspire-se

O que é (e como é) ser mãe depois dos 40 anos

A servidora pública Bel Fazio e a jornalista Yara Reimberg compartilham vivências parecidas, mas cada uma com experiências únicas: as duas foram mães depois dos 40 anos. Elas passaram pelo que se convém chamar de “gravidez de risco”, por conta da idade um pouco mais avançada para uma gestação. 

Ao longo do tempo, a medicina alterou um pouco a faixa considerada “ideal” para uma gravidez. Na década de 1960, informa o site do médico Drauzio Varella, era de 18 a 25 anos. Hoje, está entre os 20 e 29 anos. Os motivos? O aumento da expectativa de vida feminina (de 48 anos para 80, entre 1940 e 2019) e a opção de algumas mulheres de postergar a data da primeira gravidez. 

“Não importa qual a idade da mulher, eu sempre digo ‘vamos tentar’. Já tive paciente de 48 anos que engravidou, e a orientei da melhor forma possível para ter uma gestação saudável”, explicou Tânia Schupp Machado (CRM-SP 81750), mestre e doutora em gravidez tardia pela Universidade de São Paulo (USP).

“Sempre digo para as mulheres que querem engravidar mais tarde: depois dos 35, a gravidez é de risco, mas paciente bem cuidada volta feliz para casa com um filho saudável”, declarou Tânia ao Viva a Longevidade.

Por que a gravidez tardia, após os 35 anos, é considerada gravidez de risco 

São três os motivos para classificar a gravidez após os 35 anos como uma gravidez de risco, ressalta Machado:
 
1.    Porque, a partir dessa idade, os óvulos da mulher começam a envelhecer, resultando na perda de fertilidade. Aos 50 anos, já não há óvulos no organismo.
2.    Porque aumenta a possibilidade de o feto ter um problema cromossômico e desenvolva um distúrbio genético, como a síndrome de Down.
3.    Porque aumenta o risco de desenvolver hipertensão e diabetes ou de apresentar uma doença pré-existente e não diagnosticada anteriormente. 

Machado explica que as mulheres que querem engravidar após os 35 anos devem começar o pré-natal antes da concepção, para realizar exames e uma avaliação clínica com um ginecologista. Pode haver prescrição de medicação para evitar problemas de saúde da mãe e diminuir o risco de malformação do sistema nervoso central do futuro bebê. 

“Ter acompanhamento de um profissional que entenda as questões da gravidez tardia é importante para evitar problemas de saúde para a mãe e o bebê. A hipertensão é algo cuja causa a comunidade científica não descobriu ainda em gestantes acima dos 35 anos, mas sabemos que uma mulher com sobrepeso terá mais chances de ter pressão alta do que outra que mantém uma rotina saudável”, comenta a especialista.

Essa rotina saudável tem relação com a prática de atividades físicas, boa alimentação e outros cuidados com a saúde. A médica afirma que, caso uma mulher acima dos 35 anos tenha desejo de ser mãe, um exame que não pode deixar de ser feito é a conferência do hormônio antimülleriano, que vai medir a reserva ovariana. Ou seja, identificar a quantidade de óvulos presentes no corpo.

Já para a mulher que engravidou, a indicação é que “ela procure o médico assim que a menstruação atrasar, pois as gestantes acima de 35 anos estão mais sujeitas a abortamento”, explica ela. As futuras mães têm também maior probabilidade de desenvolver uma gestação de gêmeos e trigêmeos.

Ser mãe aos 40 é possível 

É importante falar sobre os riscos, porque eles existem, mas, como bem disse Machado, uma mãe bem cuidada pode voltar da maternidade com uma criança saudável no colo. Afinal, risco não significa certeza.

Mas, além disso, há um contraponto cultural: muitas mulheres são pressionadas, sob diferentes contextos, para dar à luz.  Isso acontece mais ainda com as que buscaram consolidar sua carreira profissional e pessoal antes de gerar uma criança.

Aline Dini, jornalista e criadora do Mãe aos 40, projeto que busca discutir a maternidade na maturidade, afirma que toda essa informação a respeito dos riscos associados a uma gravidez após os 35 anos não pode servir como uma pressão para a desistência da maternidade por aquelas mulheres que desejam ser mães depois do dito “período ideal”. 

“É preciso mostrar o caminho do meio, que sim, é possível engravidar, que há chances de a criança nascer com algum problema de saúde, mas a maneira como esse conhecimento é compartilhado não é transparente para a mulher”, diz a jornalista.

O projeto Mãe aos 40 existe há mais de sete anos e, como Aline destaca, as mulheres devem ter uma rede de apoio, além do seu ambiente familiar e social, para ter as informações corretas e embasadas sobre maternidade tardia e entender que a gestação pode acontecer em qualquer idade. “Muitas mulheres já me relataram que, ao falar que queriam ser mães depois dos 40, foram questionadas ‘por que isso agora?’. Isso é angustiante para a mulher que deseja ser mãe.”

Saiba mais sobre a iniciativa Mãe aos 40

O projeto conta relatos de mulheres que foram mães depois dos 40 anos e conteúdos com especialistas que discutem e esclarecem as questões sobre maternidade tardia.

Site: https://maeaos40.com.br/
Telegram (canal de informações): https://t.me/maeaos40
Telegram (grupo de apoio): https://t.me/grupomaeaos40
Instagram: https://www.instagram.com/maeaos40/
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCj0vPRhLpiC7qw5I74OC57A

Como é ser mãe aos 40?

Apesar das estatísticas e do aumento do risco, cada gravidez é única. Como Aline ressalta, é preciso informar e acolher esse público que deseja ter uma criança. E mostrar que, sim, é possível ter uma gravidez saudável após os 35 anos. 

O Viva a Longevidade conversou com duas mães sobre suas experiências de maternidade tardia. Confira o relato delas abaixo.

Bel Fazio, mãe aos 40: “Chuva de informações me deixou com medo”

“Eu tenho duas filhas. Engravidei da Alice aos 30 anos e da Clarisse aos 40. Nenhuma das duas foi fruto de escolha, mas de questões da vida. A Alice, eu tive no meu primeiro casamento e, aos 34 anos, decidi que não queria mais ser mãe de novo, porque já estava realizada com ela. 

Mas então me vi envolvida com um homem que se tornou um segundo pai para Alice e um companheiro incrível. Nos meus 38 anos, estabilizada profissionalmente e emocionalmente, comecei a ser questionada se não seria mãe novamente por conta da dedicação do meu atual marido com minha filha e comigo. Achei injusto, porque o corpo é da mulher e um filho não é um prêmio.

Perto dos meus 40 anos, ele conversou comigo sobre nós termos um casamento sem um filho nosso. Isso me deixou angustiada e então me questionei por que eu tinha esse medo de engravidar novamente. Busquei acolhimento até que percebi que eu não queria mudar a mãe que eu era para a Alice, mas precisava de mais uma experiência materna. E então decidi apenas deixar fluir.

A diferença entre a gestação de Alice e a de Clarisse é que, aos 40 anos, eu tinha uma gama maior de informação. E essa chuva de informações me deixou com muito medo, principalmente de perfis de mãe no Instagram, muitas abaixo da faixa dos 40 anos, que diziam que a criança ia nascer com diversas doenças, mas ao mesmo tempo que tudo era tão bonito e tão perfeito.

Eu comecei a sentir uma pressão social sobre ser mãe aos 40 e depois uma outra pressão para ter Clarisse antes da hora. Marcaram uma data do parto pra mim, mas depois desmarcamos. Minha bolsa estourou no dia em que Clarisse faria 42 semanas de gestação. Foram sete horas de trabalho de parto. Minha filha chegou na hora dela. 

Hoje ela é superforte, saudável e nem um pouco parecida com a irmã. Eu brinco que estou passando por duas experiências completamente diferentes, porque não julgo meus erros e acertos com Alice, mas tento não cometer com Clarisse alguns deslizes da primeira maternidade.

Hoje eu me considero uma menina de 45 anos. Sou muito feliz com a escolha que fiz (de ter a segunda filha) e acho que, se a mulher quiser ser mãe, é só fechar o olho e ir. Enquanto a natureza disser que ela pode ser mãe, só vai. 

Yara Reimberg, mãe aos 44: “A gestação foi uma plenitude pra mim” 

“Eu sempre quis ser mãe. Aos 35 anos eu me casei e, depois de uma tentativa que não deu certo, tentamos tratamento. Eu estava com 41 anos, e um exame mostrou que eu tinha uma pequena aderência nas trompas (tecido cicatricial que pode bloquear as tubas uterina) e, por conta da idade, até uma fertilização in vitro foi recomendada.

Mas acabou que nos separamos e, aos 44 anos, eu entrei num relacionamento e, em um mês, me descobri grávida. Parece até coisa de adolescente, mas eu chorei de susto.

Comprei um teste de farmácia e, quando vi o ‘positivo’, achei que eu não tinha lido a bula direito. Mais tarde, fiz o um exame no laboratório que confirmou que eu estava grávida.

Foi uma gestação tranquila. Nos primeiros meses, os hormônios me deixaram com raiva e o pré-natal foi um baque, porque vem com esses dados estatísticos da minha filha poder ter algum problema genético.

Mas, depois, posso dizer que foi um momento de plenitude pra mim. Eu amava minha barriga, eu me achava iluminada, uma santa, uma super-heroína. O mundo podia estar acabando, mas eu estava lá passando a mão na minha barriga, as coisas passavam até devagar. Foi uma experiência corporal muito legal.

E a gestação toda foi ótima até a 36ª semana, quando tive pré-eclâmpsia e fiquei uma semana internada. Por mais que eu quisesse parto normal, Rafaela acabou nascendo de cesárea. Apesar disso, eu senti uma plenitude, um amor quando eu vi o rosto dela, foi incrível.

Uma amiga minha, que também é mãe, me disse que eu iria chorar o que nunca havia chorado. Só entendi isso depois de ver minha filha.


Quando ela nasceu, eu só tinha minha mãe (hoje falecida), uma amiga muito próxima que cuidava — e ainda cuida —de mim e da Rafa e as amizades do trabalho. Essa pequena rede de apoio foi muito boa para me ajudar na criação dela. Sabe por quê? Porque eu não entendia o que era maternidade até eu ser mãe e precisar trabalhar ao mesmo tempo. Várias vezes levei Rafaela para o trabalho e ela ficava pulando de braço em braço enquanto eu terminava reuniões e outras demandas.

Existe essa patrulha para tudo, o que pode ser superfrustrante, mas, no fim, toda a minha gestação foi somente ouvir médico e, depois que tive minha filha, prestar atenção só nela.”

Gravidez tardia também pode ser benéfica para a longevidade 

Apesar de a palavra “risco” estar associada à maternidade tardia, há estudos que apontam benefícios para as mulheres que geram uma vida após essa idade.

E um desses benefícios, por sinal, tem a ver com a longevidade. Mulheres que são mães depois dos 25 anos têm 11% a mais de chances de viverem até os 90 anos, de acordo com um estudo publicado no American Journal of Public Health. Já uma pesquisa da Escola de Medicina da Universidade de Boston (Estados Unidos) percebeu que a expectativa de vida das mulheres que tiveram um último parto depois dos 33 anos sobe para 95 anos. 

“A idade do último parto pode ser um indicador da taxa de envelhecimento. A capacidade natural de ter um filho em uma idade mais avançada provavelmente indica que o sistema reprodutivo da mulher está envelhecendo lentamente e, portanto, o resto de seu corpo também”, disse Thomas Perls, especialista em epidemiologia, genética do envelhecimento e longevidade excepcional e pesquisador do estudo realizado pela Universidade de Boston à época em que ele foi lançado.
 

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