Dia Internacional da Saúde: os desafios para um mundo mais saudável e justo

A pandemia do novo coronavírus mostra que a segurança e proteção individual dependem da segurança e proteção do coletivo. Confira a coluna de Alexandre Kalache

Dia Internacional da Saúde: os desafios para um mundo mais saudável e justo

A cada ano, um tema é escolhido pela Assembleia Mundial da Saúde para comemorar o Dia Internacional da Saúde, celebrado em todo 7 de abril. Em 2021, o tema é: “Um mundo mais justo e mais saudável”. 

Estávamos no início da pandemia do novo coronavírus quando o tema foi escolhido (era maio de 2020), sem ter os elementos para avaliar o impacto global que ela viria a ter mundo afora. O desenrolar dos acontecimentos e a evolução desta imensa crise sanitária demonstram o acerto na escolha do tema.

Mundo mais saudável: proteção do nosso maior bem, a saúde

Gostaria de saudar a tecnologia na área biológica que permitiu o desenvolvimento de várias vacinas eficazes e seguras em tão pouco tempo. Com elas, podemos esperar que uma das vertentes do tema escolhido — um mundo mais saudável — se concretize. 

Apesar dos esforços da Organização Mundial da Saúde (OMS) e várias outras agências e organizações intergovernamentais e da sociedade civil, ainda temos dezenas de países onde sequer uma única dose do imunizante foi disponibilizada. No entanto, mesmo nos países em que a vacinação avança célere, não se pode baixar a guarda. Uma coisa é certa: voltar ao “velho normal” não é uma opção.

A pandemia do novo coronavírus terá consequências ainda imprevisíveis e, certamente, duradouras. Teremos ainda, como indivíduos e sociedades, a necessidade de proteger nosso bem maior: a saúde. O distanciamento físico, o uso de máscaras, o cuidado máximo com a higiene parecem ter vindo para ficar por um bom tempo.

''Teremos ainda, como indivíduos e sociedades, a necessidade de proteger nosso bem maior: a saúde.''

Novamente, salve a tecnologia – agora me referindo ao terreno de comunicações. Isolamento físico deixou de ser o equivalente a isolamento social. Muitos de nós pudemos seguir em contato com nossos familiares e amigos. E a opção de trabalho em regime home office se consolidou – mesmo que ainda se tente encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. 

Imaginem, eu me assombrei quando enviei um fax pela primeira vez... parece ter sido há tão pouco tempo. Pudemos, durante a pandemia, continuar em contato com nossos amigos, familiares, nossas redes – desde claro, disponhamos das ferramentas e equipamentos, contando com acesso seguro e fácil à internet. Há países onde já se discute se este não seria um direito fundamental – como água ou rede sanitária.  Conquistamos muito em pouco tempo. 

Mundo mais justo: segurança e proteção do coletivo (e não apenas do indivíduo)

Mas, para muitas outras pessoas, pouco mudou. São aquelas que não têm a opção de trabalho em home office e podem até tentar, mas não conseguem se proteger. O almejado distanciamento físico soa como uma metáfora distante.

E isso me remete à segunda vertente do tema do Dia Internacional da Saúde deste ano: mais justo. Ela ainda se vê longínqua.

A OMS nos ensinou, com a Carta de Ottawa da Promoção da Saúde de 1986 — de cuja elaboração eu tive o privilégio de participar muito antes de ser diretor do departamento de envelhecimento e saúde da organização — de que “a saúde é criada no contexto do dia a dia, onde as pessoas vivem, trabalham, se divertem, locomovem-se, amam-se”.

Alguns anos antes, em 1978, a OMS havia pronunciado em Alma-Ata (na então União Soviética) os princípios da Atenção Primária à Saúde inserida no contexto da cobertura universal da saúde.

Ambos os documentos, o de Ottawa e o de Alma-Ata, nos ensinam que, para envelhecermos bem, há que prestar muita atenção na forma como vivemos, nas escolhas que podemos (ou não) fazer e na importância de contarmos com serviços de saúde que possam ser disponibilizados a todos. 

''A pandemia nos passa este recado de forma inequívoca: para que eu esteja seguro e protegido, é preciso que aqueles a minha volta também o estejam.''

Os vírus não respeitam fronteiras e evadem as barreiras que queiramos em vão criar. Cercas, muros, fossas...nada adianta.  Podemos até nós cansar dos vírus, germes, pragas – mas eles não se cansam de nós. Afinal, seu único objetivo é se replicar.

A celebrar, o fato de que esta pandemia encontrou uma capacidade tecnológica incomparável com a que tínhamos até um passado bem recente. Mas a pandemia nos deu um sinal de alerta. O Planeta Terra está nos avisando: “Comportem-se, preservem-me”.

Obrigado, Mãe Terra, ouviremos sua advertência... para o bem de nossa própria saúde.
 

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