Risco da exploração de petróleo

Entenda os riscos da exploração do petróleo

A exploração de petróleo é uma atividade cheia de riscos. Requer tarefas perigosas como perfurar rochas em regiões ultraprofundas, enfrentar pressões altíssimas e manipular volumes gigantescos de gás.

O acidente que ocorreu com a plataforma Deepwater Horizon, da petrolífera britânica BP, no Golfo do México, é um exemplo dos tipos de danos que qualquer erro no processo de perfuração das reservas do óleo podem causar.

O desastre matou 11 funcionários da empresa e causou graves prejuízos ambientais e econômicos na costa sul dos Estados Unidos, especialmente nos setores de pesca e turismo, além de abalar a popularidade do presidente Barack Obama e complicar as relações entre Washington e Londres. A BP tenta há meses, sem sucesso, estancar definitivamente o vazamento.

O professor Ricardo Cabral de Azevedo, doutor do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Universidade de São Paulo (USP), compara a perfuração de um poço de petróleo à construção de um túnel: o caminho precisa estar pronto, reforçado e cimentado para que seja seguro o 'trânsito' de óleo por ali. Antes disso, qualquer fluido que entre no poço, como gás, detritos e o próprio petróleo é indesejado e representa risco para a exploração.

"Enquanto você está perfurando , está criando uma superfície rochosa em volta do poço que pode ser insegura", diz o professor.  "Então após perfurar cada trecho do poço, quando necessário, você desce um revestimento de aço para sustentar essa parede".

Os "invasores" mais perigosos nessa etapa da perfuração são o petróleo e o gás. "O mais perigoso é o gás, porque ele é muito leve, ele pode subir até a superfície", explica.

 

Tipos de acidente

Para o ex-diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP) David Zylbersztajn, a maior parte das medidas de precaução das petrolíferas busca evitar o vazamento de gás. "Hoje o que chama mais a atenção e é temido são os casos como o da BP, de vazamentos que terminam em explosão", explica.


De acordo com Azevedo, da USP, há dois tipos principais de acidente que podem ocorrer na perfuração do petróleo: o kick e o blow out. Os dois envolvem a invasão do poço por fluidos.

"O kick é quando entram fluidos no poço, não necessariamente chegando à superfície". Nesse caso, técnicos injetam  substâncias mais pesadas no poço para impedir que os fluidos saiam de controle.

 O mais perigoso, no entanto, é o gás: leve, ele pode subir e alcançar o contato com a superfície mais facilmente. "Quando o gás chega à superfície você tem o 'blow out', que é a pior situação possível para um poço de petróleo: você tem vazamentos de fluidos para o meio ambiente que podem provocar explosões, incêndios, um acidente de grandes proporções".

 

Erros na BP

Meses após o acidente no Golfo do México, ainda não se sabe exatamente quais foram as causas do desastre. "Uma coisa que pode ter acontecido são falhas na cimentação, que permitiram que houvesse espaço para esse gás migrar por entre o cimento e chegar até a superfície.  É uma profundidade de 3 mil, 4 mil metros, na hora de cimentar você não está vendo o que está fazendo então você corre sérios riscos de não ter cimentado completamente", diz o professor, ressaltando que essa é apenas uma das muitas possibilidades de explicação para a tragédia.

 Na opinião de Zylbersztajn, a petrolífera britânica investiu menos em segurança do que devia. "O que parece até agora é que eles (da BP)  foram mesquinhos em termos de gastos de segurança, a típica economia 'burra'. Economizaram X para depois gastar 50 x para consertar o desastre. É o tipo de economia que a Petrobras, considerada uma das melhores do mundo, não faz", afirma.

 O professor Wilson Siguemasa Iramina, do curso de Engenharia de Petróleo da USP, diz que o verbo "economizar" é proibido no vocabulário de uma petrolífera.

 "[A exploração de petróleo] É uma atividade de risco. A cada cinco poços, apenas um deve ter óleo e o gás. Os outros não produzem e não pagam o investimento. Todas as empresas têm que ter muito dinheiro para investir nisso", diz.

 Para  Zylbersztajn, o descuido nos investimentos em segurança da BP é consequência também das falhas na fiscalização do setor nos EUA. "O governo americano na era Bush afrouxou muito as regras e a fiscalização. No Brasil, a ANP faz uma fiscalização bem mais rígida", diz.

 

Mudanças depois do desastre

De acordo com o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, o acidente da BP representa um marco no mercado de petróleo, que passará a se preocupar ainda mais com a segurança na exploração.

"Qualquer exploração no mar daqui para a frente vai ficar muito mais cara. Primeiro porque as próprias seguradoras vão aumentar o seguro de plataforma.[...] Além disso, as próprias autoridades governamentais tendem a dificultar mais o licenciamento ambiental para explorar petróleo no mar, e a exigir equipamentos de maior grau de segurança. Isso tudo aumenta custos", afirma.

Apesar disso, ele afirma que a produção do óleo deve continuar a crescer, junto com a demanda pelo produto. "O grande desafio é descobrir como você aumenta a produção de energia com mais garantias ambientais, tendo menos acidentes e também emitindo menos gás carbônico", diz.


Controle dos estragos

Na iminência de um acidente ou explosão em uma plataforma de petróleo, a primeira alternativa é fechar o poço o mais rápido possível, explica Ricardo Azevedo. "Para isso você tem o chamado 'blow out preventer', que é um conjunto de válvulas feitas para fechar o poço em qualquer situação".

No acidente da BP, essa tentativa foi feita, de acordo com o especialista da USP. "Quando eles (da BP) viram que o fluido estava chegando próximo da superfície, eles deveriam ter fechado. E eles tentaram fazer isso, mas infelizmente esse equipamento, o blow out preventer, não funcionou".


Conforme avalia Zylbersztajn, o ideal é que a BP tivesse mais de um sistema de segurança que pudessem ser acionados no caso de um vazamento como o ocorrido.


"O que faltou lá foi a redundância: quando uma coisa falha tem que ter outra para a mesma finalidade. Se um não funciona, o outro tem que funcionar", diz ele, que cita como exemplo de recurso que falhou o alarme da plataforma, que estava desativado no momento do acidente para não acordar a tripulação com falsos alertas. "O alarme poderia ter ajudado a salvar vidas".


Outra alternativa para amenizar estragos é a que a BP tenta concluir atualmente: perfurar poços de alívio, que podem demorar até três meses para ficarem prontos, estima o professor da USP.

"Você perfura poços ao lado do poço principal que vão 'matar' o poço, ou seja, vão injetar fluidos densos que vão interromper o fluxo de óleo. E depois logo em seguida vão preencher com cimento uma parte do poço dessa tubulação e vão vedar, ou seja, esse poço não vai produzir mais", afirma Azevedo.

O coordenador do Sindicato Unificado dos Petroleiros de São Paulo, Itamar Sanches, ressalta que em casos de acidentes como o da BP é fundamental garantir a segurança e assistência aos funcionários que trabalham nas plataformas.

"O que eu acho triste é que todo mundo fala no vazamento, na questão ambiental, que é importante também, mas ninguém fala nas famílias desses onze trabalhadores que morreram (no acidente da BP)", diz Sanches.

 

No Brasil

O professor Ricardo Azevedo lembra que já houve casos no Brasil em que foi preciso fechar um poço de petróleo em situação emergencial; um exemplo é o da plataforma da P-36. "A plataforma afundou mas não houve nenhum derramamento de óleo no mar, exatamente porque o equipamento para fechar o poço funcionou perfeitamente", diz.

Nas reservas de petróleo do pré-sal, localizadas em águas ultraprofundas, a perfuração é ainda mais difícil.

 "No caso do pré-sal você tem águas ultraprofundas, até mais profundas do que essa do Golfo do México (do acidente com a BP). Você tem pressões altíssimas, suficientes para amassar o aço como se fosse uma folha de papel. A maioria dos equipamentos que o ser humano dispõe não funciona nessas condições. Um submarino muito antes de chegar nessa profundidade já é esmagado", explica.

Para o professor, no entanto, o domínio tecnológico e investimento em segurança utilizados no Brasil pela Petrobras são reconhecidos internacionalmente.

 "Eu fico tranqüilo porque a nossa qualidade é uma das melhores do mundo, inclusive superior a essa que foi utilizada no Golfo do México, onde aconteceu o acidente. O Brasil e a Noruega são dois países que são referência nesse tipo de tecnologia", afirma.

 Wilson Siguemasa Iramina, professor do curso de Engenharia de Petróleo da USP, diz que perfurar o sal em águas ultraprofundas é bem mais difícil do que perfurar rocha: qualquer movimento brusco ou mesmo o uso de fluidos pode fazer a estrutura desmoronar.

 "O sal não se comporta como uma rocha, ele se mexe. As técnicas de usar fluidos à base de água, que são usados para preencher os furos com água e evitar que a parede caia, poderiam dissolver o sal e desabar a camada, fechando o poço", explica.

Amenizar impactos

Embora tenha níveis de segurança adequados, o Brasil deve se preocupar  em planejar e tornar conhecidos os planos de ação que serão adotados em caso de acidentes petrolíferos, afirma Zylbersztajn.

 "A gente não pode apostar na infalibilidade de equipamento, não existe nada com risco zero. E como os impactos são muito grandes, a sociedade merece uma explicação do que seria feito no caso de um acidente. Ainda mais no pré-sal, em que a exploração é feita a 300 km da costa. Não se sabe como seriam transportadas pessoas, equipamentos, produtos dispersantes de óleo", diz o ex-diretor da ANP.

 

Fonte: Site http://g1.globo.com/

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